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Aforismos 2 - Versus Vox



ISBN: 978-989-54694-2-0
Depósito Legal: 466548/20


excertos da obra:




Doze Provas da Inexistência de Deus






EXCERTO DA OBRA
«Sexto argumento: DEUS NÃO CRIOU SEM MOTIVO; MAS É IMPOSSÍVEL ENCONTRAR UM ÚNICO MOTIVO QUE O LEVASSE A CRIAR.»

«De qualquer forma que se pretenda examiná-la, a criação é inexplicável, enigmática, falha de sentido. 

Há uma coisa que salta à vista de todos: se Deus criou, é impossível admitir que ele tenha realizado este acto grandioso - cujas consequências deviam ser fatalmente proporcionais ao próprio acto, e, por conseguinte, incalculáveis - sem que fosse determinado por uma razão de primeira ordem. 


Pois muito bem. Qual foi essa razão? Por que motivo tomou Deus a resolução de criar? Que motivo o impeliria a isso? Qual seria o seu intuito? Que ideia o perseguiria? Que fim prosseguiria ele? 
Multiplicai, nesta ordem de ideias, as perguntas, gravitai, conforme quiserdes, em torno deste problema, examinai-o em todos os seus aspectos e em todos os sentidos, e eu desafio seja quem for a que o resolva noutro sentido que não seja o das incoerências ou das subtilezas.


Por exemplo: eis uma criança educada na religião cristã. O seu catecismo afirma-lhe, e os seus mestres confirmam, que foi Deus que a criou e que a colocou no mundo. Suponhamos que a criança faz a si própria esta pergunta: - «Porque é que Deus me criou e me lançou no mundo?» - e que quer obter uma resposta judiciosa, racional. Nunca a obterá.


Suponhamos ainda que a criança, confiando na experiência e no saber dos seus educadores, persuadida do carácter sagrado de que eles - padres ou pastores - estão revestidos, possuindo luzes especiais e graças particulares; convencida de que, pela sua santidade, estão mais próximos de Deus e, portanto, melhor iniciados que elas nas verdades reveladas; suponhamos que esta criança tem a curiosidade de perguntar aos seus mestres PORQUE E PARA QUÊ Deus a criou e a pôs no mundo, e eu afirmo que os mestres são incapazes de contestar a esta simples interrogação com uma resposta plausível, sensata.»


pág. 24, 25.

Nicolau Copérnico



«A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfluo ou inútil.» 

Nicolau Copérnico

«Nada é supérfluo, tudo é essência de tudo.» por Filipe de Fiúza


Tudo é Divino


Há uma elasticidade cósmica, se assim lhe posso chamar, que é extremamente enganadora. Dá ao homem a ilusão temporária de que é capaz de mudar as coisas. Mas o homem acaba sempre por tornar a cair em si. É aí, na sua própria natureza, que pode e deve praticar-se a transmutação, e em nenhum outro lugar. E quando um homem percebe a que ponto é isto verdade, reconciliando-se com todas as aparências do mal, da fealdade, da mentira e da frustração; a partir de então, deixa de aplicar ao mundo a sua imagem pessoal de tristeza e dor, de pecado e corrupção. 

Eu poderia, é certo, formular tudo isto de modo muito mais simples, dizendo que, aos olhos de Deus, tudo é divino. E quando digo tudo, é mesmo tudo o que quero dizer. Quando olhamos as coisas a tal luz, a palavra «transmutação» adquire um sentido ainda maior: pressupõe que o nosso bem-estar depende do nosso entendimento espiritual, do modo como nos servimos da visão divina que possuímos. Com um critério assim, o que nos poderá ainda chocar? 

Henry Miller


Imagem de Suyarts

Séneca: a adversidade


Porquê espantar-nos que possa ser vantajoso, por vezes mesmo desejável, expor-nos ao fogo, às feridas, à morte, à prisão? Para o homem esbanjador a austeridade é um castigo, para o preguiçoso o trabalho equivale a um suplício; ao efeminado toda a labuta causa dó, para o indolente qualquer esforço é uma tortura: pela mesma ordem de ideias toda a actividade de que nos sentimos incapazes se nos afigura dura e intolerável, esquecendo-nos de que para muitos é uma autêntica tortura passar sem vinho ou acordar de madrugada! Qualquer destas situações não é difícil por natureza, os homens é que são moles e efeminados!

 Para formar juízos de valor sobre as grandes questões há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objectos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade!

Indica-me um jovem ainda incorrupto e de espírito alerta, e ele não hesitará em julgar mais afortunado o homem capaz de suportar todo o peso da adversidade sem dobrar os ombros, o homem capaz de alçar-se acima da fortuna. Não é proeza nenhuma manter a calma quando a situação é tranquila; é admirável, pelo contrário, conservar o ânimo quando todos se deixam abater, mantermo-nos em pé quando todos jazem por terra. O que há de mal na tortura e em tudo o mais a que damos o nome de «adversidade»? Apenas isto, segundo penso: o facto de nos abaixar, abater, humilhar o espírito. Ora nada disto pode suceder ao homem sábio, o qual se mantém vertical seja qual for o peso sobre os seus ombros. A um tal homem, coisa alguma deste mundo pode humilhar; um tal homem a nada do que é inevitável se recusa. O sábio não se lamenta se lhe acontecer algo daquilo a que a condição humana está sujeita. Conhece as próprias forças, sabe que não vergará sob o peso. Com isto eu não estou a colocar o sábio à parte do comum dos homens nem a julgá-lo inacessível à dor como se de um penedo inacessível se tratasse. Apenas recordo que o sábio é composto de duas partes: uma é irracional, e sensível, portanto, às feridas, às chamas, à dor; a outra é racional, dotada de convicções inabaláveis, inacessível ao medo, indomável. É nesta parte que reside o bem supremo para o homem. Enquanto o seu bem próprio ainda está por preencher, o espírito do homem pode resvalar na incerteza, mas desde o momento em que atinge a perfeição adquire para sempre a estabilidade total.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

A acção


«A acção só vale quando é feita como um exercício, e um exercício com amor, quando é feita como uma ascese, e uma ascese por amor de que se liberte o Deus que em nós reside. E se a acção implica amargura, o que há a fazer é mudar de campo: porque não é a acção que estará errada, mas nós próprios.»

Agostinho da Silva.

A substância do sentimento é não se exprimir


Só quando chega à inteligência é que o sentimento se exprime. A substância do sentimento é não se exprimir. Todo o gesto pressupõe, ainda que sumária, obscura e subconscientemente, a representação mental do gesto - e a «representação mental» é uma ideia, isto é, um fenómeno daquela parte de nós, a que chamamos inteligência.

Fernando Pessoa

Fotografia de Astashkin Igor


Beijo de pedra incandescente


Há muito, muito, muito tempo, quando Sintra não era Sintra, nós nascemos na névoa de um céu cor de pérola, no circuito prismático das constelações sem Norte, nascemos assim no segredo poético do Sol. Há muito, muito, muito tempo, quando nós não eramos nós e Sintra era montanha de sonho, aconteceu o beijo magno das grandes massas. Desse beijo de pedra incandescente, alimentado pela coragem divina e a força demoníaca, é fundada vagarosamente a base de um novo templo. Nasceu assim um Amor Cósmico na órbita de irmãos.

O tempo passou e dissipada a névoa primordial, os nossos olhos entreabriram-se para um mundo irreconhecível. Fomos acordados na água dos cristais terrenos por um eco de som infinito. Ainda em fogo, o solo acalmava com as primeiras chuvas. Tudo era agora ígneo como a beleza virgem do mistério. Ligados umbilicalmente à estrutura do núcleo, o grande impacto fez-nos viver a experiência de um bem perdido, de um passado transformado em presente sem destino.

Na sequência do movimento das orbes, caminhámos de geração em geração, multiplicando a esperança de regressar à nossa origem. Inaugurámos até o pensamento para facilitar o acesso às imagens do lugar originário.

Por fim, decorrida meia-eternidade, encontrámos através de uma imagem colectiva o único vestígio reconhecível da nossa origem: Sintra. Aqui sentimos o Amor Cósmico, aqui reencontrámos a luz que nos une e faz ser, é aqui que todos os dias esperamos que a Árvore do Espírito cresça e nos leve de volta a casa. Fizemos de Sintra um templo transitório de esperança e paz e na Montanha da Lua celebramos o que outrora éramos, o que há muito, muito, muito, muito tempo, quando Sintra não era Sintra, conseguiamos ler no coração do Universo: vive desejo atma.

Sintra é o último vestígio cósmico do nosso mundo sagrado.


Filipe de Fiúza

2012-01-27

(Inédito publicado em www.selene-culturasdesintra.com)


*texto inspirado nas Monadologias à Lua de Rodrigo Sobral da Cunha, na teoria do grande impacto e em Das Origens Catacósmicas

Kafka


Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira. 

Frank Kafka

A Compra da República


Este mês, comprei uma República. Capricho caro que não terá imitadores. Era um desejo que tinha há muito tempo e quis livrar-me dele. Imaginava que ser dono de um país dava mais prazer.

A ocasião era boa e o assunto foi resolvido em poucos dias. O presidente estava com a corda na garganta; o seu ministério, composto de clientes seus, era um perigo. Os cofres da República estavam vazios; lançar novos impostos teria sido o sinal para a revolução. Já existia um general que estava a armar bandos irregulares e prometia cargos e empregos ao primeiro que chegava.

Um agente americano que se encontrava no local avisou-me. O ministro da Fazenda correu para Nova Iorque; em quatro dias pusemo-nos de acordo. Adiantei alguns milhões de dólares à República e fixei, além disso, subsídios equivalentes ao dobro dos que recebiam o Estado, ao presidente, a todos os ministros e aos seus secretários. Deram-me, como garantia - sem que o povo o saiba - as alfândegas e os monopólios. Além disso, o presidente e os ministros firmaram um covenant secreto que me concede, praticamente o controle sobre a vida da República. Embora eu pareça, quando ali vou, um simples hóspede de passagem, sou, na realidade, o dono quase absoluto do país. Por estes dias, tive da dar uma nova subvenção, bastante avultada, para a renovação do material do Exército e, em compensação, obtive novos privilégios.

O espectáculo é, para mim, muito divertido. As câmaras continuam a legislar livremente, na aparência; os cidadãos continuam a imaginar que a República é autónoma e independente e que à sua vontade se subordina o curso das coisas. Não sabem que tudo quanto supõem possuir - vida, bens, direitos civis - depende, em última instância, de um estrangeiro desconhecido para eles, isto é, de mim. Amanhã, posso ordenar o encerramento do Congresso, uma reforma da Constituição, o aumento das tarifas aduaneiras, a expulsão dos imigrados. Poderia, se me aprouvesse, revelar os acordos secretos da camarilha ora dominante e derrubar, assim, o governo, desde o presidente ao último secretário. E não me seria impossível obrigar o país que tenho sob a minha mão a declarar guerra a uma das Repúblicas limítrofes.

Este poder oculto e ilimitado fez-me passar uma horas agradáveis. Sofrer todos os incómodos e o servilismo da comédia política é uma fadiga bestial; mas ser o movimentador de títeres que, detrás dos cenários, pode divertir-se a puxar os cordelinhos dos fantoches obedientes, é uma volúpia única. O meu desprezo pelos homens encontro um alimento saboroso e mil confirmações.

Não sou mais do que um rei incógnito de uma pequena República em desordem; mas a facilidade com que logrei dominá-la e o evidente interesse de todos os iniciados em conservar o segredo faz-me pensar em outras nações, talvez mais vastas e importantes do que a minha República, vivem, sem se aperceberem, debaixo de análoga dependência de soberanos estrangeiros. Sendo necessário mais dinheiro para a sua aquisição, tratar-se-á, em vez de um só dono, como no meu caso, de um trust, de um sindicato de negócios, de um grupo restrito de capitalistas ou de banqueiros. Mas tenho fundadas suspeitas de que outros países são governados por pequenos comités de reis invisíveis, apenas conhecidos pelos seus homens de confiança, que continuam a desempenhar com naturalidade o papel dos chefes legítimos.

Giovanni Papini

Fotografia de Alexandr Zakoldaev

Nietzsche

Os valores mudam quando os criadores mudam. Se queremos criar, é necessário começar por destruir.

Ghandi


















No meio da morte, a vida persiste. No meio da mentira, a verdade persiste. No meio da escuridão, a luz persiste.

Mahatma Gandhi