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Ruínas



I

E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar.

Nem sabe a gente já como, nem quando,
Há-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente eléctrica do mar!...

Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo...
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II

Morreu-me a luz da crença — alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo.

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

Fotografia «Ruína na Praia das Maçãs» de Filipe de Fiúza

A escola

Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão;
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.

Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora,
Dos corpos feitos de arminho
Das almas feitas d'aurora

Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las,
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrelas.

Contemplam de quando em quando,
E com que inveja, senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor

Oh, que existência dourada
Lá de cima, no azul, na glória,
Sem cartilha, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!

E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos
E as cifras tristes dão ais.

Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix com as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!

Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é - Ontem
E o do discípulo - Amanhã!

Como é que há-de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o passado que ensina
O b a bá ao futuro!

Entregar a um tarimbeiro
Um espírito infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!

Barbaridade irrisória
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!

A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada:
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvorada!

Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.

Da pequenina semente
Que a escola régia destrói
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.

Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoureiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.

Deixem ver o sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço,
Esta escola é um atentado
Um roubo feito ao progresso.

Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paúl;
Rasgai no muro ignorância
Trezentas portas de azul!

O professor asinino
Segundo entre nós ele é
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.

Empunhando as rijas férulas,
Vós esmagais e partis,
As crianças - essas pérolas -
Na escola - esse almofariz.

Isto escolas!... que indecência!
Escolas esta farsada!
São açouges de inocência!
São talhos d'anjos, mais nada.

Guerra Junqueiro