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Light Blue Memories





Light Blue Memories 

O exiles of the mountain of oblivion!
O the jewels of your names, slumbering in the mire of silence
O your obliterated memories, your light blue memories
In the silty mind of a wave in the sea of forgetting
Where is the clear, flowing stream of your thoughts?
Which thieving hand plundered the pure golden statue of your dreams? 
In this storm which gives birth to oppression
Where has your ship, your serene silver mooncraft gone?
After this bitter cold which gives birth to death –
If the sea should fall calm
If the cloud should release the heart's knotted sorrows
If the maiden of moonlight should bring love, offer a smile
If the mountain should soften its heart, adorn itself with green,
become fruitful –
Will one of your names, above the peaks,
become bright as the sun?
Will the rise of your memories
Your light blue memories
In the eyes of fishes weary of floodwaters and
fearful of the rain of oppression
become a reflection of hope?
O, exiles of the mountain of oblivion!

November/December 2001

by Nadia Anjuman

Translated by Zuzanna Olszewska and Belgheis Alavi

Não existir



Imaginar a forma 
doutro ser Na língua, 
proferir o seu desejo 
O toque inteiro 

Não existir 

Se o digo acendo os filamentos 
desta nocturna lâmpada 
A pedra toco do silêncio densa 
Os veios de um sangue escuro 

Um muro vivo preso a mil raízes 

Mas não o vinho límpido 
de um corpo 
A lucidez da terra 
E se respiro a boca não atinge 
a nudez una 
onde começo 

Era com o sol E era 
um corpo 

Onde agora a mão se perde 
E era o espaço 

Onde não é 

O que resta do corpo? 
Uma matéria negra e fria? 
Um hausto de desejo 
retém ainda o calor de uma sílaba? 

As palavras soçobram rente ao muro 
A terra sopra outros vocábulos nus 
Entre os ossos e as ervas, 
uma outra mão ténue 
refaz o rosto escuro 
doutro poema 



António Ramos Rosa, in "A Nuvem Sobre a Página"

FOTOGRAFIA DE JORGE TRABULO MARQUES

- um obrigado ao poeta por existir, 23-09-2013 - 

«Sintra Romântica, ou Morte!»


«Sintra entrara num ciclo eleitoral, cuja questão mais polémica girava em torno do método a aplicar nas demolições dos horrendos edifícios que a Modernidade legara à romântica vila. O poderosíssimo Partido Vegetariano defendia uma desmontagem peça a peça para evitar a poluição causada pelas implosões puras, como pretendia uma boa parte da oposição. Propunha, além disso, que os mesmos edificíos fossem reconstruídos no Parque Holográfico da Modernidade em Mem-Martins, onde não faltariam também pistas simulando as auto-estradas de então, com inúmeras possibilidades reais de acidentes mortais para todos os saudosistas. Tendo como base de apoio os agricultures cibernéticos da chamada Primeira Cintura Biológica, a qual correspondia à maior densidade de granjas e conventos medievais reconstituídos da Celtibéria, o Partido Vegetariano recolhia também vastos apoios no interior de outros partidos, movimentos e igrejas, como o Partido dos Artistas, o Clube das Bruxas, o Partido Imperial Saloio, a Academia Romântica, e até junto do Partido do Sétimo Selo. O núcleo duro da oposição era constituído pelo Partido dos Antigos Partidos, defensor dos valores antigos da Modernidade e pelo pequeno mais activo Partido dos Cabeça de Pedra. O Partido da Independência e o Partido Imperial Saloio funcionavam como o fiel da balança institucional, apoiando quase sempre o Partido Vegetariano nas suas decisões, mas garantindo igualmente os direitos da oposição, com a qual, pontualmente, não receavam convergir. Estes dois partidos eram os herdeiros e os guardiães do espírito da independência do Movimento Radical Romântico que há muitos anos conduzira ao famoso pronunciamento da Peninha: «Sintra Romântica, ou Morte!»
Este primeiro século de independência levara a mítica Vila a um desenvolvimento esplendoroso. A extraordinária revolução da destruição dos subúrbios e a subsequente conversão agrícola das terras mais ricas do jovem estado, a criação da famosa Primeira Cintura Biológica, o desenvolvimento de milhares de caminhos vicinais numa rede de vias de comunicação não poluentes, a abertura de inúmeros quiosques de comunicações globais que cobriam o vasto território do Império Saloio, que confinava a Norte com a Ericeira e a Sul com Cascais, a aplicação do princípio da circulação permanente a uma eficiente e exemplar rede de transportes públicos, toda essa fantástica infra-estrutura que oferecia aos orgulhosos Sintrenses algo que excedia todas as qualificações conhecidas como qualidade de vida, constituía a base sólida da criação de riqueza nacional: a mais variada e rica produção hortícola da Casa da Europa e a mais frenética e avançada indústria cibernética de comunicações globais.»

In Novelos de Sintra, Jorge Telles de Menezes

Mors Amor


Morrer mais do que a morte, amor, morrer-te
sem morrer deste lado: lado a lado
de outra morte a morrer outra metade
de não morrer já mais que só morrer-
te em ti a morte viva de morrer
memória ou corpo aonde amor amado
ainda amando morre o outro lado
de morrer mais que a morte de morrer-te.

José Augusto Seabra

Fotografia de Serge Motylev