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Rodin





«O mundo não será feliz a não ser quando todos os homens tiverem alma de artista, isto é, quando todos tirarem prazer do seu trabalho.»

Auguste Rodin

Há coisas que não conseguimos interromper



Há coisas que não conseguimos interromper. Não é possível derrubar o progresso, tal como não é possível desligar a poesia aos homens. Tudo é o mesmo. Sabemos que sim. E havemos todos de morrer entre os progressos dos armamentos, os progressos dos prazeres silenciosos,  os progressos das ilusões progressistas, os progressos das excelsas glórias, progressos, progressos e mais progressos...

Onde está o progresso na poesia do mundo? Onde está a poesia do progresso do mundo? Tudo é o mesmo, tudo está no paraíso.

Havemos todos de morrer porque não conseguimos interromper a morte com a vida, sabemos que não conseguimos, e que não há progresso sem armas, que não há progresso sem prazer, que não há progresso sem ilusão de progresso, que não há progresso sem glória prometida, não há, porque tudo é o mesmo e porque havemos todos de morrer e não progredir nada, desligados do mundo, desligados das coisas do mundo, da poesia do mundo.

Oh homens, acordai e vivei o progresso mais feliz, o paraíso é quando nada morre e na poesia nada morre. Sabemos que sim, que a poesia é a essência do progresso do mundo, tudo o resto é interrompível.

08-11-2013


Filipe de Fiúza

(inédito)

Fotografia de Reda Danaf

A Compra da República


Este mês, comprei uma República. Capricho caro que não terá imitadores. Era um desejo que tinha há muito tempo e quis livrar-me dele. Imaginava que ser dono de um país dava mais prazer.

A ocasião era boa e o assunto foi resolvido em poucos dias. O presidente estava com a corda na garganta; o seu ministério, composto de clientes seus, era um perigo. Os cofres da República estavam vazios; lançar novos impostos teria sido o sinal para a revolução. Já existia um general que estava a armar bandos irregulares e prometia cargos e empregos ao primeiro que chegava.

Um agente americano que se encontrava no local avisou-me. O ministro da Fazenda correu para Nova Iorque; em quatro dias pusemo-nos de acordo. Adiantei alguns milhões de dólares à República e fixei, além disso, subsídios equivalentes ao dobro dos que recebiam o Estado, ao presidente, a todos os ministros e aos seus secretários. Deram-me, como garantia - sem que o povo o saiba - as alfândegas e os monopólios. Além disso, o presidente e os ministros firmaram um covenant secreto que me concede, praticamente o controle sobre a vida da República. Embora eu pareça, quando ali vou, um simples hóspede de passagem, sou, na realidade, o dono quase absoluto do país. Por estes dias, tive da dar uma nova subvenção, bastante avultada, para a renovação do material do Exército e, em compensação, obtive novos privilégios.

O espectáculo é, para mim, muito divertido. As câmaras continuam a legislar livremente, na aparência; os cidadãos continuam a imaginar que a República é autónoma e independente e que à sua vontade se subordina o curso das coisas. Não sabem que tudo quanto supõem possuir - vida, bens, direitos civis - depende, em última instância, de um estrangeiro desconhecido para eles, isto é, de mim. Amanhã, posso ordenar o encerramento do Congresso, uma reforma da Constituição, o aumento das tarifas aduaneiras, a expulsão dos imigrados. Poderia, se me aprouvesse, revelar os acordos secretos da camarilha ora dominante e derrubar, assim, o governo, desde o presidente ao último secretário. E não me seria impossível obrigar o país que tenho sob a minha mão a declarar guerra a uma das Repúblicas limítrofes.

Este poder oculto e ilimitado fez-me passar uma horas agradáveis. Sofrer todos os incómodos e o servilismo da comédia política é uma fadiga bestial; mas ser o movimentador de títeres que, detrás dos cenários, pode divertir-se a puxar os cordelinhos dos fantoches obedientes, é uma volúpia única. O meu desprezo pelos homens encontro um alimento saboroso e mil confirmações.

Não sou mais do que um rei incógnito de uma pequena República em desordem; mas a facilidade com que logrei dominá-la e o evidente interesse de todos os iniciados em conservar o segredo faz-me pensar em outras nações, talvez mais vastas e importantes do que a minha República, vivem, sem se aperceberem, debaixo de análoga dependência de soberanos estrangeiros. Sendo necessário mais dinheiro para a sua aquisição, tratar-se-á, em vez de um só dono, como no meu caso, de um trust, de um sindicato de negócios, de um grupo restrito de capitalistas ou de banqueiros. Mas tenho fundadas suspeitas de que outros países são governados por pequenos comités de reis invisíveis, apenas conhecidos pelos seus homens de confiança, que continuam a desempenhar com naturalidade o papel dos chefes legítimos.

Giovanni Papini

Fotografia de Alexandr Zakoldaev

Mundo revolucionado



Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julge que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.

Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.

Fernando Pessoa

Fotografia de Praviсk Sergej

Mudo desespero



«A maioria dos homens leva uma vida de mudo desespero. O que é apelidado de resignação é na verdade um desespero incurável. Mudais-vos da cidade desesperada para o campo desesperado e tendes de vos consolar com a bravura das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, porém inconsciente, é ocultado até na sombra dos chamados jogos e diversões da humanidade. Não há neles diversão, já que acontecem após o trabalho. Contudo, é uma característica da sabedoria não fazer coisas desesperadas.»

Henry David Thoreau



Fotografia de Alexandr Zakoldaev

Filipe de Fiúza integra o Movimento Poetas do Mundo


O jovem poeta português integrou recentemente o movimento Poetas do Mundo no qual participam autores da Ásia, Mundo Árabe, Europa, África, Oceania e América.

«Poetas do Mundo, é chegada a hora exata para unir nossas forças na defesa da continuação da vida: somos guerreiros da paz e mensageiros dessa nova história para da humanidade. Somos os poetas da luz – veículo que nos conduz para levar o chamado de alerta de que não podemos nos furtar. Atravessamos a morte de um período degenerado das eras, e assistiremos o nascimento de uma NOVA ERA – para a qual, nós, os poetas, recebemos nossos dons, nossas missões e obrigações. A humanidade vive momentos decisivos de luta pela sobrevivência, mas ainda não acordou para o fato de estar caminhando rumo a um precipício, direto para a extinção. Urge que tomemos o leme e mudemos o caminho para a elevação coletiva, para que recuperemos o patrimônio da vida como dom universal e direito de todos

Primeiro parágrafo do Manifesto Universal dos Poetas do Mundo

Podcast Filipe de Fiuza



Mirabai foi a poetisa escolhida para o lançamento do Podcast Filipe de Fiuza com leituras em língua portuguesa de poemas de poetas do mundo.

A primeira vez

As pérolas magnas do abismo
sobresaiem-me dos lábios
que rossam a pele
das jibóias em escarpa
como se a luz do mundo
levasse Deus nos braços.

O meu anjo regressa
no instante feérico
do segredo da arte.

Filipe de Fiúza