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Mundo revolucionado



Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julge que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.

Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.

Fernando Pessoa

Fotografia de Praviсk Sergej

Mensagem




PESSOA, Fernando, 1888-1935
Mensagem / Fernando Pessoa. - 1934. - [70] p. ; 22,2 x 14,7 cm

Nota(s): Dactiloscrito a tinta preta com emendas e acrescentos autógrafos a lápis e a tinta preta. - Exemplar encadernado em tecido cinzento, com identificação na lombada. - Primeira versão do título dactiloscrita «PORTUGAL», riscada e substituída pelo título supra, a lápis. - Versão completa, com notas manuscritas para tipografia, que inclui folha de rosto e índice autógrafo a tinta preta, com a mesma tinta da numeração das páginas. - Exemplar adquirido em 1990, com o patrocínio da CNCDP e do Banco Comercial Português. Nota manuscrita sobre anteriores proprietários, na folha de guarda: «Comprado a Antonio Fumaça em 1.10.65. Pertencia ao espólio do Sr. Armando de Figueiredo, da Editorial Império». - Publicado com o título «Mensagem». Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1934.


BN Esp. E3/146