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Theosophia





THEOSOPHIA

( avoco, para a Musa minha, o Arcano e Arcaico do Carro da Vitória )

de todo o coração, ao Filipe de Fiúza

Todo o Nume já passa pelo nome,
Seja Júpiter, Zeus ou Jeová.
O fármaco da Graça é dela a fome,
O âmago de Amor é Ámon Ra.

E dorme na Diana o deus Apolo,
E as rosas são Vénus e a Via.
Tu és lauta liança, e tu queres colo.
Tu repousas nos braços de Maria.

IN HERBIS ET IN VERBIS


PAULO JORGE BRITO E ABREU

O Perdão



O Perdão

Perdoe-me Senhor
Avé ignorância vivida
Sou estro de amor
Aquele d'alma perdida.

Perdoe-nos Senhor
Avé a tudo de bem
Pois sofremos a dor
Do mistério d'além.

Perdoe-lhes Senhor
Avé sempre a caminho
De um sonho redentor
Contigo ninguém é sozinho.

Eis-nos diante da luz
Na tua voz somos o fim
E o nada que no pó reluz
Somos dádiva de ti assim.


24.12.2015, poema inédito

Filipe de Fiúza

Farei voar-me longe



farei voar-me longe
como lanças de lyra
nesse haver dos sóis
super natural chegar
assim mágica alegria

tradução do autor

I will fly me away
as spears of lyra
in that having suns
super natural arrive
thus magical joy


Filipe de Fiúza

Inédito - excerto de obra em produção

Tomas Tranströmer




PÁSSAROS MATINAIS

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

(1966)

Minha alma abriu-se...



Sebastião da Gama no Convento da Arrábida






Minha alma abriu-se...
Que linda janela
que é a minha alma!
Não!, linda não é ela:
lindas são as vistas
que se avistam dela.
.
Que ouvidos tão finos
que tem a minha alma!
Não!, finos não:
finos são os cantos
que os pássaros cantam,
meus ouvidos ouvem.
.
Como são tão belas
as coisas lá por fora!
Minha alma em tudo,
em tudo se demora.
.
Que ouvidos tão finos!
Que linda janela!
Quem me compra a alma?
Quanto dá por ela?


Sebastião da Gama

in."Cabo da Boa Esperança"
Edições Ática - Outubro/59

A poesia nunca existiu




A Poesia Nunca Existiu


Esta noite,
A poesia mente se lhe pedirmos algo

Não sou quem ledes
Nem trago um mapa de loucura que leve
À imagem. A poesia é impossível
Ou um conhecido impossível de encontrar
se tivermos uma fotografia na carteira
Nem penteada nem sorridente em deveras
palavras mais perfeitas que outras ditas,
situações que não cabe no belo escrever:
de mortes de dignidade com sal calibrado de dia;
Insanidade que se esconde em armários
De fatos conscientes arfando vivaria
E não se conhece deus que a comente

Poesia doente como todas
Breton com angústias transparentes
aladas de papel e azul esquecidas
numa tela puxando-me de si
que não estou senão vivo na pele,
Um carro de duas portas de saída para dentro
Implodindo élans como roldanas de árvores sem ovos
nem casca; volvem-nas êmbolos de tempestade
Quentes na nuca da vontade sem o brio

Ainda deslizas, esfera?!
Nem musa de gladílios em punho
Nem leituras que possam recordar o poema reminescente...

Meu amigo,
Desta vez falta o composto que gozes:
A criatura tem a corda evidente no pescoço
Tebas cai e a Grécia é Romana sem couros de armaduras
Ou ouros de filósofos e templos com bases construídas no ar!
Dentes e soldados convencidos; Cítaras d'alabastro!
Nem a morte se exprime nas vidas daqui
Nem há delirar corrente
Ou mais que algo mais que não se sabe se é

Mas há frustração que baste
A consciência conquista a falta de produto.
A poesia torna-se crível como um homem que fala constantemente
E morreu, por nunca ter existido
Na língua óbvia do cansaço como uma adivinha

Ponto final



Nuno de Jesus

Sintra, 1998

Fotografia de Wahid Nour eldin





Transição





1.

sabes, walt,
um livro nunca terá a dimensão de uma vida ou
de um corpo,
nem as suas palavras estremecem como estremece
um lago, um rio ou um oceano

são dimensões opostas:
a linguagem e a natural visceralidade do
poema,
um poema sem imaginação,
mas com toda a intensidade de quem não espera mais nada
senão o próprio desejo de
viver,

de quem não escreve mais nada
senão essa convicção plena
que matar é sinónimo de 

[tornar escura essa voz].



por Jorge Vicente

http://jorgevicente.blogspot.pt/

Tea Invitation






Ibtisam Barakat






English Version


I write
for my heart
has become
a country
and I want
all people
to live in it.

I make space
by emptying
all corners
of fear.

I make peace
by making
a cup of tea
for my story
and yours.

A cup of tea
for our estranged
histories
that come from
one family
but to one another
do not speak.

Hot tea and mint.
I have meant
to invite you over
to my heart.

Do you like your tea
with sugar?





Fotografia de mim 

Primordial Chaos










Li Sen



English Version


Time, so many cobblestones
placed in wilderness,
so much sand ground fine.
How many stones, how much sand
hidden out of sight?
I have been looking for the book of incantations
but it seems it has long since turned to ash.
I have gazed into many eyes, all vague and absorbed.
I once stopped at a shrine built by others,
poured out my heart.
But the shrine was a pile of sand and stones
a long shallow pit
with nothing inside
not even a feather.

(Translated by Wang Ho and Steven Schroeder. Reprinted from Chinese Windmill, Virtual Artists Collective, 2007.)


Fotografia de Александр Ларионов

A Poem About White Apples






white apples, first apples of summer,
with skin as delicate as a baby’s,
crispy like white winter snow.
your smell won’t let me sleep,
this is how dead men
haunt their murderers’ dreams.
white apples,
this is how every july the earth
gets heavier under your weight.

and here only garbage smells like garbage…
and here only tears taste like salt...

we were picking them
like shells in green ocean gardens,
having just turned away from mothers’ breasts
we were learning
to get to the core of everything with our teeth.

so why are our teeth like cotton wool now...

white apples,
in black waters, the fishermen,
nursed by you, are drowning.



Valzhyna Mort


Fotografia de Teodor Dukov

Charge of the Light Brigade - Alfred Tennyson







http://en.wikipedia.org/wiki/The_Charge_of_the_Light_Brigade_(poem)

Ângelo de Lima



Sonho suave e bom que me envolveste
Não me deixes sozinho sobre a terra
Se vais, contigo esta minha alma encerra,
Leva-a contigo a Deus d`onde vieste.


Como do céu minha alma assim mereceste
Que por ti d`ele um sonho se descerra
Aì com que frenesi que a ti se aferra,
Sonho, a ti sonho, esta alma a que desceste


Sonhos que em vossas asas me tomais
Em meio do caudal em que derivo
E em vir a mim dos outros me estremais.


Sonho, ó último sonho de que vivo
Ai não me deixes tu como os demais.
Retém-no em meu seio – ó meu senhor! – cativo

Razão de Ser


Escrevo. E pronto. 
Escrevo porque preciso 
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso. 
Escrevo porque amanhece. 
E as estrelas lá no céu 
Lembram letras no papel, 
Quando o poema me anoitece. 
A aranha tece teias. 
O peixe beija e morde o que vê. 
Eu escrevo apenas. 
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

Fotografia de Stanislav N.

Desencanto dos dias


Não era afinal isto que esperávamos
não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente

Ruy Belo

Fotografia de Wahid Nour eldin

Melodia



Melodia

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista
do livro "Paixão e Cinzas"


Fotografia de Saranikolai

Minha Sintra



Minha Sintra,
milenar senhora
da eterna graça
do tempo que passa.

Minha Sintra,
onde tudo se demora
em breve sonhar
vila montanha-mar.

Minha Sintra,
onde estás o amor é,
fazes-me chorar
porque o Sol e Vento
são Deuses aqui
e a verdade da fé
acontece por adorar
o teu encantamento,
assim vivo em ti.

14/07/2012

Filipe de Fiúza

(poema inédito)

Ruínas



I

E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar.

Nem sabe a gente já como, nem quando,
Há-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente eléctrica do mar!...

Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo...
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II

Morreu-me a luz da crença — alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo.

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

Fotografia «Ruína na Praia das Maçãs» de Filipe de Fiúza

José Bento


1

Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra:
só as minhas mãos ficaram maiores com tua ausência
e andam perdidas,
não sabendo encontrar-se mais uma com a outra.

O ventre de cada coisa é um espelho a recordar-te
- um espelho onde o meu rosto não cabe -
e eu avanço, petrificado de silêncio,
como se me chamasses,
tendo-te cada momento mais distante
nas asas cansadas dos olhos sonolentos.

Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem,
jamais amanheceria para mim.
Se minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te,
dar-te-ia minhas mãos como espada para o teu regresso.

Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,
certo de que jamais
estarei presente para ti
em cada estrela que descobrires na noite.

José Bento, in Silabário

Os livros que publicam e ninguém lê


Os livros que publicam e ninguém lê.
As conferências que se fazem e ninguém ouve.
Os pensamentos que se imaginam e ninguém diz.
Tudo amorfo
Tudo neutro
Tudo monstro.
No campo
Ou na cidade,
Na vida pública
Ou privada,
persegue-nos uma campânula
de chegadas e partidas
de partidas e chegadas
de coco e colarinhos duros
de aperto de mão (por vezes suado)
e de palmada nas costas.
Onde íntimos se misturam
com estranhos.
Onde amigos e inimigos
se veêm
se olham
se comem
se contradizem
se cumprimentam
e se elogiam.

Ruben A.

Fotografia de Jollyn

Ruy Belo «E Tudo Era Possível»