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Daniel Faria



Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu. 


Daniel Faria

Tomas Tranströmer




PÁSSAROS MATINAIS

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

(1966)

Herberto Hélder


Engoli
água. Profundamente:  a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.



Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

Minha alma abriu-se...



Sebastião da Gama no Convento da Arrábida






Minha alma abriu-se...
Que linda janela
que é a minha alma!
Não!, linda não é ela:
lindas são as vistas
que se avistam dela.
.
Que ouvidos tão finos
que tem a minha alma!
Não!, finos não:
finos são os cantos
que os pássaros cantam,
meus ouvidos ouvem.
.
Como são tão belas
as coisas lá por fora!
Minha alma em tudo,
em tudo se demora.
.
Que ouvidos tão finos!
Que linda janela!
Quem me compra a alma?
Quanto dá por ela?


Sebastião da Gama

in."Cabo da Boa Esperança"
Edições Ática - Outubro/59

Transição





1.

sabes, walt,
um livro nunca terá a dimensão de uma vida ou
de um corpo,
nem as suas palavras estremecem como estremece
um lago, um rio ou um oceano

são dimensões opostas:
a linguagem e a natural visceralidade do
poema,
um poema sem imaginação,
mas com toda a intensidade de quem não espera mais nada
senão o próprio desejo de
viver,

de quem não escreve mais nada
senão essa convicção plena
que matar é sinónimo de 

[tornar escura essa voz].



por Jorge Vicente

http://jorgevicente.blogspot.pt/

Charge of the Light Brigade - Alfred Tennyson







http://en.wikipedia.org/wiki/The_Charge_of_the_Light_Brigade_(poem)

Light Blue Memories





Light Blue Memories 

O exiles of the mountain of oblivion!
O the jewels of your names, slumbering in the mire of silence
O your obliterated memories, your light blue memories
In the silty mind of a wave in the sea of forgetting
Where is the clear, flowing stream of your thoughts?
Which thieving hand plundered the pure golden statue of your dreams? 
In this storm which gives birth to oppression
Where has your ship, your serene silver mooncraft gone?
After this bitter cold which gives birth to death –
If the sea should fall calm
If the cloud should release the heart's knotted sorrows
If the maiden of moonlight should bring love, offer a smile
If the mountain should soften its heart, adorn itself with green,
become fruitful –
Will one of your names, above the peaks,
become bright as the sun?
Will the rise of your memories
Your light blue memories
In the eyes of fishes weary of floodwaters and
fearful of the rain of oppression
become a reflection of hope?
O, exiles of the mountain of oblivion!

November/December 2001

by Nadia Anjuman

Translated by Zuzanna Olszewska and Belgheis Alavi

A rútila rosa


Paulo Brito e Abreu


A Dama do castelo ainda fala
Aos Poetas que são os seus cativos,
A pedra de esmeralda ainda exala
Os seus raios de sangue, redivivos.

O tronco do carvalho, na Kabbalah,
Ainda dá poções e curativos,
E oculto no cor e na antessala,
Lá tem, o Santo Graal, superlativos.

Neófito, Pastor, Hierofanta,
A Magia não dorme, ela encanta
Os cabelos de néctar do Cruzado.......

E por cima do poço do Oriente
E esmagando a cabeça da serpente,
Calmo e livre, sorri o Iniciado.

Lisboa, 09/ 09/ 1989

MENS AGITAT MOLEM


PAULO JORGE BRITO E ABREU

Não existir



Imaginar a forma 
doutro ser Na língua, 
proferir o seu desejo 
O toque inteiro 

Não existir 

Se o digo acendo os filamentos 
desta nocturna lâmpada 
A pedra toco do silêncio densa 
Os veios de um sangue escuro 

Um muro vivo preso a mil raízes 

Mas não o vinho límpido 
de um corpo 
A lucidez da terra 
E se respiro a boca não atinge 
a nudez una 
onde começo 

Era com o sol E era 
um corpo 

Onde agora a mão se perde 
E era o espaço 

Onde não é 

O que resta do corpo? 
Uma matéria negra e fria? 
Um hausto de desejo 
retém ainda o calor de uma sílaba? 

As palavras soçobram rente ao muro 
A terra sopra outros vocábulos nus 
Entre os ossos e as ervas, 
uma outra mão ténue 
refaz o rosto escuro 
doutro poema 



António Ramos Rosa, in "A Nuvem Sobre a Página"

FOTOGRAFIA DE JORGE TRABULO MARQUES

- um obrigado ao poeta por existir, 23-09-2013 - 

André Breton


Em primeiro lugar é o universo que deve ser interrogado sobre o homem e não o homem sobre o universo.

Um Poeta em Nova Iorque



O original que o poeta deixara um mês antes no escritório de Bergamín, em Madrid, foi redescoberto várias décadas depois e acaba de ser reeditado. 

Não haverá muitos “pequenos” livros com tanta história atrás de si. Falamos de Um Poeta em Nova Iorque, o livro de poesia que Federico García Lorca (1898-1936) escreveu quando estudou na Universidade de Columbia, na Big Apple (1929-30), mas que só seria publicado já postumamente, quase em simultâneo nos Estados Unidos e no México, pelo seu amigo editor José “Pepe” Bergamín. 

Desde a data da edição no final dos anos 30 que se discute se os 32 poemas de Um Poeta em Nova Iorque correspondiam ao projecto original de Lorca. Parece que não. Mas agora é possível perceber porquê. É que o original que o poeta assassinado pelos franquistas logo no início da Guerra Civil, em Agosto de 1936, deixara um mês antes no escritório de Bergamín, em Madrid, foi redescoberto várias décadas depois. E acaba de ser reeditado, esta semana, em Espanha, pela Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, supostamente mais de acordo com a proposta original. Coincidentemente, hoje mesmo é inaugurada, na Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma exposição sobre o livro e as histórias que ele encerra, Back Tomorrow: A Poet in New York. Federico García Lorca. Vai até 21 de Julho e reúne, para além do texto original, poemas dispersos, desenhos, cartas e documentos. 

Vamos à história: no dia 13 de Julho de 1936, Lorca deixou no escritório de Bergamín, que na altura estava fora, o original de Um Poeta em Nova Iorque, acompanhado por esta nota: “Vim aqui para te ver, e devo voltar amanhã”. Não voltou. Seguindo a descrição de Andrew A. Anderson, um hispanista britânico, especialista na obra de Lorca e responsável pela nova edição da Galaxia Gutenberg, o texto original continha poemas manuscritos e outros dactilografados, além de desenhos, distribuídos por 124 páginas. A ideia do autor seria discutir com o editor a organização do livro, e Anderson admite que alguns dos poemas pudessem ficar de fora: “Lorca queria incluir a grande maioria, mas não todos. Aos sobrantes, chamar-lhes-ia ‘órfãos’”, nota o investigador, citado pelo El País. 

Bergamín pensou inicialmente em editar o livro em Paris. Acabou por fazê-lo em Nova Iorque e no México, país onde se exilou fugindo do regime de Franco — coube-lhe, por exemplo, como organizador do Congresso Internacional de Escritores em Defesa da Cultura de 1937, encomendar Guernica a Picasso.

Depois de editar Um Poeta em Nova Iorque, Bergamín ofereceu o original a um amigo no México, Jesús de Ussía. No final dos anos 1990, estava na posse da actriz espanhola Manola Saavedra que, então se apercebeu do valor comercial do caderno e decidiu levá-lo a leilão na Christie’s. Os descendentes de Lorca, através da fundação com o nome do poeta, contestaram o direito da actriz ao manuscrito. O Tribunal de Londres deu razão a Manola, e a fundação acabou por adquirir o documento em leilão, em 2003, por cerca de 200 mil euros. 

Dez anos depois, é sobre esse material que a nova edição chega às livrarias, e que se organiza a exposição de Nova Iorque. Mas continuará por se saber qual era a ideia de Lorca para o seu livro. 

Cortesia de O Público. por Sérgio C. Andrade em 03.04.2013

Ezra Pound entrevistado por Pasolini

my mind and nothingness


When I write down my thoughts, they do not escape me. This action makes me remember my strength which I forget at all times. I educate myself proportionately to my captured thought. I aim only to distinguish the contradiction between my mind and nothingness. 

 Isidore Ducasse

Lundkvist


Às vezes o poeta deve morrer para que o poema viva...

Artur Lundkvist

António Gancho


Isto de fazer poesia
não tem não mais que fazê-la.
Põe-se o papel, pega-se no lápis
e à moela da inspiração
falemos assim, digamos assim
não se diz não.
Começa-se não mal
que se comece bem
depois de tal
vem que as imagens
ou as comparações
escrevem e metem-se no meio
do que tu supões.
Depois dentre nós dois
ou o Céu ou o Inferno
ou Deus ou o Diabo
a bela ou o quadritérnio
inspiro-me, inspiras-te,
escrevo, começo e acabo.
Não abro o coração
em dois
que não vem depois
mais sangue fluido
a falar.
Abra-se antes na função
poética
coisas como o mar
o luar, o acabar das horas
e dos dias, na poesia romântica,
e na quântica outras
coisas, outras noções,
as quantas são que não
na romântica
aqui nesta já as leis
do coração, a função
entre dois corações
mas fisiologicamente
e na romântica
apaixonadamente mais quente.
Resigno-me à função
de fazer poesia.
Esfria-me é
o condão muitas vezes
mas a teses como
esta ou uma tese
qualquer
quero fazer eu
um poema também.
Resigno-me à função.
Submeto-me à função.
Subjugo-me à função.
E não vou mais longe.
Escrevo. Poesia.
O hábito faz o monge
e eu um dia vou longe
se escrever muito em poesia.
Doutra maneira dizia que
vale mais fazer a poesia
que dizê-la
que ela de guia tem
e serve-se de bela.

António Gancho

Chorarei um dia pela minha Sintra em ruínas...



«Enquanto poeta romântico, preocupa-me o ambiente monótono e tóxico da paisagem edificada da Vila de Sintra, de uma monotonia que abre feridas incuráveis, de uma toxicidade cruel e cínica que augura o pior e o nunca visto em Sintra. Cada dia que passa inicio-me a imaginar uma Nova Sintra, a Sintra dos amores, a Sintra da saudade, a Sintra do enigma, a Sintra dos poetas e prosadores, a Vila encantatória aos pés da eterna montanha lunar.

Chorarei um dia pela minha Sintra em ruínas...»


Filipe de Fiúza

Fluição poética


O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.

Eugénio de Andrade

Fotografia de remi aerts

Mundo revolucionado



Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julge que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.

Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.

Fernando Pessoa

Fotografia de Praviсk Sergej

Como é que os poetas ganham a vida?


É uma incontornável questão, saber como é que os poetas do passado sobreviveram e aqueles poetas do nosso tempo sobrevivem neste mundo que nada tem de poético? Como é que espíritos tão sublimes conseguiram encontrar no seu dia-à-dia forma de sobreviver para pelo menos continuar a escrever e a bramar ao divino suas preces, dores e revoltas?

Uma passagem breve por alguns nomes da poesia mundial...

Chaucer foi funcionário de obras do Rei enquanto Cowley e Gay foram secretários profissionais. Shakespeare foi um homem do teatro. Donne e Swift foram directores eclesiásticos da igreja e Herrick foi um vigário. O Conde de Rochester foi um controlador e Gray professor de história. Aphra Behn foi um espião e Chatterton foi jornalista. Robert Burns foi um fazendeiro e Melville marinheiro e caixeiro. Stephen Crane foi correspondente de guerra e Edwin A. Robinson trabalhou na alfândega. Durante 11 anos AE Housman foi funcionário num escritório de patentes antes de se tornar professor de latim. James Dickey trabalhou para McCann-Erickson, uma agência de publicidade. Marianne Moore foi assistente no Hudson Park Branch da Biblioteca Pública de Nova York. Philip Larkin e Jorge Luis Borges também foram bibliotecários. Robert Frost foi um criador de aves. Hart Crane embalou doces no armazém de seu pai, trabalhou numa gráfica, escreveu textos publicitários, foi rebitador e finalmente conseguiu gerir um salão de chá. William Carlos Williams foi médico pediatra, T.S. Eliot um banqueiro e Wallace Stevens vice-presidente de uma companhia de seguros e especialista em mercados financeiros. Francis Thompson chumbou os exames de admissão a medicina cinco vezes, teve insucesso como vendedor de livros e vendedor de sapatos até que se alistou no exército mas foi considerado inapto. John Clare foi lavrador, trabalhou com um forno de cal, conviveu com ciganos, foi pai de nove filhos e tornou-se vagabundo. Alain Bosquet foi professor, jornalista e soldado na Segunda Guerra Mundial. André Breton foi médico e coleccionador. Carl Michael Bellman foi compositor. Charles Baudelaire foi ensaista, tradutor e crítico de arte enquanto Dante Alighieri foi filósofo, político e teórico literário. Rainer Maria Rilke foi secretário do escultor Auguste Rodin.


A sobrevivência dos poetas portugueses: de D. Dinis a Herberto Hélder...

D. Dinis foi rei de Portugal. Camões foi cavaleiro fidalgo. Antero de Quental foi tipógrafo e político enquanto Barbosa do Bocage foi oficial da marinha, redactor e tradutor. Delfim Guimarães trabalhou na área comercial onde desempenhou funções de contabilista e de administrador de diversas empresas tendo sido fundador da editora «Guimarães, Libânio e C.ª». António Botto foi funcionário público e livreiro. Fernando Pessoa trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa, foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário. Gil Vicente foi responsável pela organização dos eventos palacianos e dramaturgo enquanto Irene Lisboa foi professora e pedagoga. Jorge de Sena foi engenheiro civil, professor universitário e tradutor. Natália Correia foi deputada à Assembleia da República, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora. Guerra Junqueiro trabalhou como alto funcionário administrativo e foi político, deputado, jornalista. José Gomes Ferreira foi diplomata, compositor e jornalista. Teixeira de Pascoães foi advogado. Herberto Hélder trabalhou como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio.

A sobrevivência de alguns dos novos poetas portugueses é assegurada com profissões tão banais como engenheiro, gráfico, tradutor, jornalista, livreiro, filósofo, operador de call-center, agente cultural, enfermeiro, médico, informático, webdesigner, professor, agricultor, camionista, carteiro, desempregado, enfim...

Filipe de Fiúza

Força criadora


O maior mérito do homem consiste sem dúvida em determinar tanto quanto possível as circunstâncias e em deixar-se determinar por elas tão pouco quanto possível. Todo o universo está perante nós como uma grande pedreira perante o arquitecto, o qual só merece esse nome se com a maior economia, conveniência e solidez constituir, a partir dessas massas acidentalmente acumuladas pela Natureza, o protótipo nascido no seu espírito. Fora de nós, tudo é apenas elemento. Sim, até posso dizer: tudo o que há em nós também. Mas no fundo de nós próprios encontra-se essa força criadora que nos permite produzir aquilo que tem de ser e que não nos deixa descansar, nem repousar, enquanto não o tivermos realizado, de uma maneira ou de outra, fora de nós ou em nós.

Johann Goethe

Fotografia de Garik Sokolov