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Poema a Paulo Brito e Abreu





Poema a Paulo Brito e Abreu


Avé Oh Mestre!

Grã-artífice da palavra
És salvado e a salvação
Dos peregrinos herméticos
Na voz da escuridão.

Avé Oh Mestre!

Alma eterna predestinada
À glória da exaltação
Do povo da grande luz
que na felicidade dos céus
Te lavraram nesta terra
Para trazeres a liberdade anunciada.


Filipe de Fiúza


poema inédito escrito em 21 de Fevereiro 2016 na presença do poeta, Sintra

Daniel Faria



Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu. 


Daniel Faria

Tomas Tranströmer




PÁSSAROS MATINAIS

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta que como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

(1966)

Herberto Hélder


Engoli
água. Profundamente:  a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.



Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

Minha alma abriu-se...



Sebastião da Gama no Convento da Arrábida






Minha alma abriu-se...
Que linda janela
que é a minha alma!
Não!, linda não é ela:
lindas são as vistas
que se avistam dela.
.
Que ouvidos tão finos
que tem a minha alma!
Não!, finos não:
finos são os cantos
que os pássaros cantam,
meus ouvidos ouvem.
.
Como são tão belas
as coisas lá por fora!
Minha alma em tudo,
em tudo se demora.
.
Que ouvidos tão finos!
Que linda janela!
Quem me compra a alma?
Quanto dá por ela?


Sebastião da Gama

in."Cabo da Boa Esperança"
Edições Ática - Outubro/59

Transição





1.

sabes, walt,
um livro nunca terá a dimensão de uma vida ou
de um corpo,
nem as suas palavras estremecem como estremece
um lago, um rio ou um oceano

são dimensões opostas:
a linguagem e a natural visceralidade do
poema,
um poema sem imaginação,
mas com toda a intensidade de quem não espera mais nada
senão o próprio desejo de
viver,

de quem não escreve mais nada
senão essa convicção plena
que matar é sinónimo de 

[tornar escura essa voz].



por Jorge Vicente

http://jorgevicente.blogspot.pt/

Charge of the Light Brigade - Alfred Tennyson







http://en.wikipedia.org/wiki/The_Charge_of_the_Light_Brigade_(poem)

Light Blue Memories





Light Blue Memories 

O exiles of the mountain of oblivion!
O the jewels of your names, slumbering in the mire of silence
O your obliterated memories, your light blue memories
In the silty mind of a wave in the sea of forgetting
Where is the clear, flowing stream of your thoughts?
Which thieving hand plundered the pure golden statue of your dreams? 
In this storm which gives birth to oppression
Where has your ship, your serene silver mooncraft gone?
After this bitter cold which gives birth to death –
If the sea should fall calm
If the cloud should release the heart's knotted sorrows
If the maiden of moonlight should bring love, offer a smile
If the mountain should soften its heart, adorn itself with green,
become fruitful –
Will one of your names, above the peaks,
become bright as the sun?
Will the rise of your memories
Your light blue memories
In the eyes of fishes weary of floodwaters and
fearful of the rain of oppression
become a reflection of hope?
O, exiles of the mountain of oblivion!

November/December 2001

by Nadia Anjuman

Translated by Zuzanna Olszewska and Belgheis Alavi

A rútila rosa


Paulo Brito e Abreu


A Dama do castelo ainda fala
Aos Poetas que são os seus cativos,
A pedra de esmeralda ainda exala
Os seus raios de sangue, redivivos.

O tronco do carvalho, na Kabbalah,
Ainda dá poções e curativos,
E oculto no cor e na antessala,
Lá tem, o Santo Graal, superlativos.

Neófito, Pastor, Hierofanta,
A Magia não dorme, ela encanta
Os cabelos de néctar do Cruzado.......

E por cima do poço do Oriente
E esmagando a cabeça da serpente,
Calmo e livre, sorri o Iniciado.

Lisboa, 09/ 09/ 1989

MENS AGITAT MOLEM


PAULO JORGE BRITO E ABREU

Não existir



Imaginar a forma 
doutro ser Na língua, 
proferir o seu desejo 
O toque inteiro 

Não existir 

Se o digo acendo os filamentos 
desta nocturna lâmpada 
A pedra toco do silêncio densa 
Os veios de um sangue escuro 

Um muro vivo preso a mil raízes 

Mas não o vinho límpido 
de um corpo 
A lucidez da terra 
E se respiro a boca não atinge 
a nudez una 
onde começo 

Era com o sol E era 
um corpo 

Onde agora a mão se perde 
E era o espaço 

Onde não é 

O que resta do corpo? 
Uma matéria negra e fria? 
Um hausto de desejo 
retém ainda o calor de uma sílaba? 

As palavras soçobram rente ao muro 
A terra sopra outros vocábulos nus 
Entre os ossos e as ervas, 
uma outra mão ténue 
refaz o rosto escuro 
doutro poema 



António Ramos Rosa, in "A Nuvem Sobre a Página"

FOTOGRAFIA DE JORGE TRABULO MARQUES

- um obrigado ao poeta por existir, 23-09-2013 - 

André Breton


Em primeiro lugar é o universo que deve ser interrogado sobre o homem e não o homem sobre o universo.

Um Poeta em Nova Iorque



O original que o poeta deixara um mês antes no escritório de Bergamín, em Madrid, foi redescoberto várias décadas depois e acaba de ser reeditado. 

Não haverá muitos “pequenos” livros com tanta história atrás de si. Falamos de Um Poeta em Nova Iorque, o livro de poesia que Federico García Lorca (1898-1936) escreveu quando estudou na Universidade de Columbia, na Big Apple (1929-30), mas que só seria publicado já postumamente, quase em simultâneo nos Estados Unidos e no México, pelo seu amigo editor José “Pepe” Bergamín. 

Desde a data da edição no final dos anos 30 que se discute se os 32 poemas de Um Poeta em Nova Iorque correspondiam ao projecto original de Lorca. Parece que não. Mas agora é possível perceber porquê. É que o original que o poeta assassinado pelos franquistas logo no início da Guerra Civil, em Agosto de 1936, deixara um mês antes no escritório de Bergamín, em Madrid, foi redescoberto várias décadas depois. E acaba de ser reeditado, esta semana, em Espanha, pela Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, supostamente mais de acordo com a proposta original. Coincidentemente, hoje mesmo é inaugurada, na Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma exposição sobre o livro e as histórias que ele encerra, Back Tomorrow: A Poet in New York. Federico García Lorca. Vai até 21 de Julho e reúne, para além do texto original, poemas dispersos, desenhos, cartas e documentos. 

Vamos à história: no dia 13 de Julho de 1936, Lorca deixou no escritório de Bergamín, que na altura estava fora, o original de Um Poeta em Nova Iorque, acompanhado por esta nota: “Vim aqui para te ver, e devo voltar amanhã”. Não voltou. Seguindo a descrição de Andrew A. Anderson, um hispanista britânico, especialista na obra de Lorca e responsável pela nova edição da Galaxia Gutenberg, o texto original continha poemas manuscritos e outros dactilografados, além de desenhos, distribuídos por 124 páginas. A ideia do autor seria discutir com o editor a organização do livro, e Anderson admite que alguns dos poemas pudessem ficar de fora: “Lorca queria incluir a grande maioria, mas não todos. Aos sobrantes, chamar-lhes-ia ‘órfãos’”, nota o investigador, citado pelo El País. 

Bergamín pensou inicialmente em editar o livro em Paris. Acabou por fazê-lo em Nova Iorque e no México, país onde se exilou fugindo do regime de Franco — coube-lhe, por exemplo, como organizador do Congresso Internacional de Escritores em Defesa da Cultura de 1937, encomendar Guernica a Picasso.

Depois de editar Um Poeta em Nova Iorque, Bergamín ofereceu o original a um amigo no México, Jesús de Ussía. No final dos anos 1990, estava na posse da actriz espanhola Manola Saavedra que, então se apercebeu do valor comercial do caderno e decidiu levá-lo a leilão na Christie’s. Os descendentes de Lorca, através da fundação com o nome do poeta, contestaram o direito da actriz ao manuscrito. O Tribunal de Londres deu razão a Manola, e a fundação acabou por adquirir o documento em leilão, em 2003, por cerca de 200 mil euros. 

Dez anos depois, é sobre esse material que a nova edição chega às livrarias, e que se organiza a exposição de Nova Iorque. Mas continuará por se saber qual era a ideia de Lorca para o seu livro. 

Cortesia de O Público. por Sérgio C. Andrade em 03.04.2013