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António Gancho
Isto de fazer poesia
não tem não mais que fazê-la.
Põe-se o papel, pega-se no lápis
e à moela da inspiração
falemos assim, digamos assim
não se diz não.
Começa-se não mal
que se comece bem
depois de tal
vem que as imagens
ou as comparações
escrevem e metem-se no meio
do que tu supões.
Depois dentre nós dois
ou o Céu ou o Inferno
ou Deus ou o Diabo
a bela ou o quadritérnio
inspiro-me, inspiras-te,
escrevo, começo e acabo.
Não abro o coração
em dois
que não vem depois
mais sangue fluido
a falar.
Abra-se antes na função
poética
coisas como o mar
o luar, o acabar das horas
e dos dias, na poesia romântica,
e na quântica outras
coisas, outras noções,
as quantas são que não
na romântica
aqui nesta já as leis
do coração, a função
entre dois corações
mas fisiologicamente
e na romântica
apaixonadamente mais quente.
Resigno-me à função
de fazer poesia.
Esfria-me é
o condão muitas vezes
mas a teses como
esta ou uma tese
qualquer
quero fazer eu
um poema também.
Resigno-me à função.
Submeto-me à função.
Subjugo-me à função.
E não vou mais longe.
Escrevo. Poesia.
O hábito faz o monge
e eu um dia vou longe
se escrever muito em poesia.
Doutra maneira dizia que
vale mais fazer a poesia
que dizê-la
que ela de guia tem
e serve-se de bela.
António Gancho
Chorarei um dia pela minha Sintra em ruínas...

«Enquanto poeta romântico, preocupa-me o ambiente monótono e tóxico da paisagem edificada da Vila de Sintra, de uma monotonia que abre feridas incuráveis, de uma toxicidade cruel e cínica que augura o pior e o nunca visto em Sintra. Cada dia que passa inicio-me a imaginar uma Nova Sintra, a Sintra dos amores, a Sintra da saudade, a Sintra do enigma, a Sintra dos poetas e prosadores, a Vila encantatória aos pés da eterna montanha lunar.
Chorarei um dia pela minha Sintra em ruínas...»
Filipe de Fiúza
Fluição poética

O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Eugénio de Andrade
Fotografia de remi aerts
Eugénio de Andrade
Fotografia de remi aerts
Mundo revolucionado

Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julge que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.
Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.
Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.
Fernando Pessoa
Fotografia de Praviсk Sergej
Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.
Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.
Fernando Pessoa
Fotografia de Praviсk Sergej
Como é que os poetas ganham a vida?

É uma incontornável questão, saber como é que os poetas do passado sobreviveram e aqueles poetas do nosso tempo sobrevivem neste mundo que nada tem de poético? Como é que espíritos tão sublimes conseguiram encontrar no seu dia-à-dia forma de sobreviver para pelo menos continuar a escrever e a bramar ao divino suas preces, dores e revoltas?
Uma passagem breve por alguns nomes da poesia mundial...
Chaucer foi funcionário de obras do Rei enquanto Cowley e Gay foram secretários profissionais. Shakespeare foi um homem do teatro. Donne e Swift foram directores eclesiásticos da igreja e Herrick foi um vigário. O Conde de Rochester foi um controlador e Gray professor de história. Aphra Behn foi um espião e Chatterton foi jornalista. Robert Burns foi um fazendeiro e Melville marinheiro e caixeiro. Stephen Crane foi correspondente de guerra e Edwin A. Robinson trabalhou na alfândega. Durante 11 anos AE Housman foi funcionário num escritório de patentes antes de se tornar professor de latim. James Dickey trabalhou para McCann-Erickson, uma agência de publicidade. Marianne Moore foi assistente no Hudson Park Branch da Biblioteca Pública de Nova York. Philip Larkin e Jorge Luis Borges também foram bibliotecários. Robert Frost foi um criador de aves. Hart Crane embalou doces no armazém de seu pai, trabalhou numa gráfica, escreveu textos publicitários, foi rebitador e finalmente conseguiu gerir um salão de chá. William Carlos Williams foi médico pediatra, T.S. Eliot um banqueiro e Wallace Stevens vice-presidente de uma companhia de seguros e especialista em mercados financeiros. Francis Thompson chumbou os exames de admissão a medicina cinco vezes, teve insucesso como vendedor de livros e vendedor de sapatos até que se alistou no exército mas foi considerado inapto. John Clare foi lavrador, trabalhou com um forno de cal, conviveu com ciganos, foi pai de nove filhos e tornou-se vagabundo. Alain Bosquet foi professor, jornalista e soldado na Segunda Guerra Mundial. André Breton foi médico e coleccionador. Carl Michael Bellman foi compositor. Charles Baudelaire foi ensaista, tradutor e crítico de arte enquanto Dante Alighieri foi filósofo, político e teórico literário. Rainer Maria Rilke foi secretário do escultor Auguste Rodin.
A sobrevivência dos poetas portugueses: de D. Dinis a Herberto Hélder...
D. Dinis foi rei de Portugal. Camões foi cavaleiro fidalgo. Antero de Quental foi tipógrafo e político enquanto Barbosa do Bocage foi oficial da marinha, redactor e tradutor. Delfim Guimarães trabalhou na área comercial onde desempenhou funções de contabilista e de administrador de diversas empresas tendo sido fundador da editora «Guimarães, Libânio e C.ª». António Botto foi funcionário público e livreiro. Fernando Pessoa trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa, foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário. Gil Vicente foi responsável pela organização dos eventos palacianos e dramaturgo enquanto Irene Lisboa foi professora e pedagoga. Jorge de Sena foi engenheiro civil, professor universitário e tradutor. Natália Correia foi deputada à Assembleia da República, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora. Guerra Junqueiro trabalhou como alto funcionário administrativo e foi político, deputado, jornalista. José Gomes Ferreira foi diplomata, compositor e jornalista. Teixeira de Pascoães foi advogado. Herberto Hélder trabalhou como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio.
A sobrevivência de alguns dos novos poetas portugueses é assegurada com profissões tão banais como engenheiro, gráfico, tradutor, jornalista, livreiro, filósofo, operador de call-center, agente cultural, enfermeiro, médico, informático, webdesigner, professor, agricultor, camionista, carteiro, desempregado, enfim...
Filipe de Fiúza
Força criadora

O maior mérito do homem consiste sem dúvida em determinar tanto quanto possível as circunstâncias e em deixar-se determinar por elas tão pouco quanto possível. Todo o universo está perante nós como uma grande pedreira perante o arquitecto, o qual só merece esse nome se com a maior economia, conveniência e solidez constituir, a partir dessas massas acidentalmente acumuladas pela Natureza, o protótipo nascido no seu espírito. Fora de nós, tudo é apenas elemento. Sim, até posso dizer: tudo o que há em nós também. Mas no fundo de nós próprios encontra-se essa força criadora que nos permite produzir aquilo que tem de ser e que não nos deixa descansar, nem repousar, enquanto não o tivermos realizado, de uma maneira ou de outra, fora de nós ou em nós.
Johann Goethe
Fotografia de Garik Sokolov
Johann Goethe
Fotografia de Garik Sokolov
Rubrica «Das origens catacósmicas» em Selene Culturas de Sintra

Filipe de Fiúza inaugura a rubrica «Das origens catacósmicas» no n.º 2 do jornal cultural online Selene Culturas de Sintra que será oficialmente lançado no dia 22 de Junho de 2011 na Casa de Teatro de Sintra, pelas 18h. O tema de fundo da edição n.º2 do jornal é a presença e a vivência da escritora Maria Gabriela Llansol em Sintra.
Em «Das origens catacósmicas», o poeta perscruta as origens cósmicas mais remotas que os espíritos trazem consigo até hoje envolvendo tais ecos e tais espíritos num contexto antropológico-poético da existência de Sintra.
Gravura de Bartolomeu Cid dos Santos
Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.
Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.
Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu [as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
photography by Albinas Mataitis
Filipe de Fiúza vai publicar no Boletim Digital dos Confrades da Poesia

O Boletim mensal digital de Os Confrades da Poesia foi fundado com a incumbência de instituir um Núcleo de Poetas, facultando a todos os membros da confraria não só partilhar e divulgar a sua arte poética como também conviver fraternamente.
Para além dos poetas Pinhal Dias e Conceição Tomé, Presidente e Vice-Presidente da Confraria, respectivamente, os poetas portugueses Adelina Velho Palma, Agostinho Moncarcho, Amadeu Afonso, Fernanda Lúcia, Joaquim Sustelo, Filipe Paixão, Maria Ivone Vairinho, Susana Custódio, os poetas brasileiros Malubarni, Luis Poeta, Socorro Lima Dantas, Mário Rogério Feijó, Ademar Macedo, Anna Paes, Vivaldo Terres, entre muitos outros de toda a lusofonia, publicam assiduamente no Boletim dos Confrades da Poesia tendo uma janela aberta para o mundo.
Todos os poetas portugueses estão convidados.
- Poeta, Engenheiro e Activista que acredita que «A Imaginação é Deus.».


