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Das Origens Catacósmicas - Texto Zero


Texto Zero

Sintra é um berço de lava adormecida, dormimos num berço de lava adormecida. Há muito, muito, muito tempo, quando Sintra não era Sintra, nós nascemos, descobrimos o primeiro Sol, o primeiro sal oceânico, o primeiro trovão. Há muito, muito, muito tempo, quando nós não eramos nós e o Sol, o sal e o trovão eram apenas sonhos, Sintra nascia muito, muito, muito longe de Sintra.

A ordem instável das coisas estabeleceu, nas ligações puras e duras do acaso coincidente, a criação de um lugar sagrado, nunca antes imaginado, onde todas as orações são uma, onde todas as essências a essência, essa ordem instável das coisas fez desprender da terra aparentemente calma este lugar de culto e com a coragem divina e a força demoníaca fundou vagarosamente a base de um novo templo.

Sintra é um berço de lava adormecida onde dormimos há muito, muito, muito tempo porque também nós nascemos desta lava, nesta terra, que hoje é o nosso lugar sagrado. Este Sol, este oceano, esta Sintra existe porque foi o nosso sonho quando muito, muito, muito longe quisemos um dia ser felizes.


Filipe de Fiúza

2011-02-04

(inédito publicado em www.selene-culturasdesintra.com)

Fotografia de bogdan

Há coisas que não conseguimos interromper



Há coisas que não conseguimos interromper. Não é possível derrubar o progresso, tal como não é possível desligar a poesia aos homens. Tudo é o mesmo. Sabemos que sim. E havemos todos de morrer entre os progressos dos armamentos, os progressos dos prazeres silenciosos,  os progressos das ilusões progressistas, os progressos das excelsas glórias, progressos, progressos e mais progressos...

Onde está o progresso na poesia do mundo? Onde está a poesia do progresso do mundo? Tudo é o mesmo, tudo está no paraíso.

Havemos todos de morrer porque não conseguimos interromper a morte com a vida, sabemos que não conseguimos, e que não há progresso sem armas, que não há progresso sem prazer, que não há progresso sem ilusão de progresso, que não há progresso sem glória prometida, não há, porque tudo é o mesmo e porque havemos todos de morrer e não progredir nada, desligados do mundo, desligados das coisas do mundo, da poesia do mundo.

Oh homens, acordai e vivei o progresso mais feliz, o paraíso é quando nada morre e na poesia nada morre. Sabemos que sim, que a poesia é a essência do progresso do mundo, tudo o resto é interrompível.

08-11-2013


Filipe de Fiúza

(inédito)

Fotografia de Reda Danaf

Chave perdida

Imagem de PolTergejst


«O céu brilha. Há um homem que tem a chave. A porta abre e o Sol desvanece. O que aquece não é fogo nem astro, o que aquece é o brilho do amor na saudade. Sorrir. Onde paramos? Avançamos. Há tudo o que é, somos tudo o que somos. O céu brilha. Havia um homem de chave perdida que sorriu ao parar diante da entrada do grande infinito. Qual chave? O Sol nasce.»


Excerto inédito (de obra em produção)


Filipe de Fiúza