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«E» de Esperança



encontrei esta letra - E - enquanto mexia na terra, em um terreno lavrado de uma quinta onde tenho aprendido e praticado a arte da agricultura. pensei imediatamente no porquê da letra E e não noutra qualquer. pensei no porquê da letra E ser feita de um metal corroído pelo tempo. pensei no porquê de ter sido eu a encontrar tal letra. 

mais do que tudo o que possa ter pensado ou imaginado, esta letra E é para mim um sinal de Esperança e é uma espécie de talismã do tempo, pois por mais que a ferrugem ataque o pedaço de ferro, demorará centenas ou talvez milhares de anos para que este desapareça. o mesmo acontece com a Esperança, por mais difícil que a vida seja ou pareça ser, o sentimento de Esperança mesmo que profundamente atacado pelos mais agudos momentos de tristeza, frustração, incerteza ou vazio será sempre aquele que nos ocupará o dia seguinte e o outro dia e manter-nos-á a energia, a vontade e o espírito caminhante - também entendido por «fé» - afim de continuarmos aqui e agora a buscar algo ou alguém que nos conforte e nos permita aquela nova ou renovada oportunidade na vida. 

porque nada acontece por acaso, há que estar atento aos verdadeiros e subtis sinais divinos que vamos encontrando nas aventuras e desventuras da vida.

Filipe de Fiúza

fotografia de Filipe de Fiúza

Processo social dos tempos modernos



Toda a gente procura um sentido para a vida. Não para a vida em geral mas para a sua própria vida. Todos querem saber por que razão existem e o que devem fazer com a sua existência. Desejam sentir-se produtivos e realizados. A maioria quer ser feliz.

Viver numa cidade moderna é como estar preso numa grande máquina cheia de engrenagens, atirado de um lado para o outro em movimentos repetitivos. A máquina só permite uma opção aos pobres ratos humanos que correm loucamente dentro dela. Ou conseguem acompanhar os andamentos ou, então, são transformados num hamburger. A máquina não tem piedade e não permite aberrações.

Aqueles que sucumbem à implacável canção do aço tornam-se escravos, não dos outros homens, mas do deus calculista da sociedade contemporânea, deus que baptizei de Mechanos, cujo critério único é a eficiência. Aqueles que optam por sair do sistema ou que não conseguem andar a par do mecanismo são destruídos. Durante alguns momentos, podem passear-se entre as linhas de montagem enquanto os seus pares mais tímidos trabalham, mas, mais cedo ou mais tarde, escorregam e, tal como Charlie Chaplin em Tempos Modernos, são consumidos pelo processo social. Acabam nas prisões, nos sanatórios ou em caixões.

Donald Tyson

Fotografia de Andrey Astrov

Fluição poética


O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.

Eugénio de Andrade

Fotografia de remi aerts

Mundo revolucionado



Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julge que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, o são todos os reformadores.

Revolucionário ou reformador - o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

Tudo para nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito de mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós. Aquela justiça íntima pela qual escrevemos uma página fluente e bela, aquela reformação verdadeira, pela qual tornamos a vida a nossa sensibilidade morta - essas coisas são a verdade, a nossa verdade, a única verdade. O mais que há no mundo é paisagem, molduras que enquadram sensações nossas, encadernações do que pensamos. E é-o quer seja a paisagem colorida das coisas e dos seres - os campos, as casas, os cartazes e os trajos - quer seja a paisagem incolor das almas monótonas, subindo um momento à superfície em palavras velhas e gestos gastos, descendo outra vez ao fundo na estupidez fundamental da expressão humana.

Revolução? Mudança? O que eu quero deveras, com toda a intimidade da minha alma, é que cessem as nuvens átonas que ensaboam cinzentamente o céu; o que eu quero é ver o azul começar a surgir de entre elas, verdade certa e clara porque nada é nem quer.

Fernando Pessoa

Fotografia de Praviсk Sergej