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Os livros que publicam e ninguém lê


Os livros que publicam e ninguém lê.
As conferências que se fazem e ninguém ouve.
Os pensamentos que se imaginam e ninguém diz.
Tudo amorfo
Tudo neutro
Tudo monstro.
No campo
Ou na cidade,
Na vida pública
Ou privada,
persegue-nos uma campânula
de chegadas e partidas
de partidas e chegadas
de coco e colarinhos duros
de aperto de mão (por vezes suado)
e de palmada nas costas.
Onde íntimos se misturam
com estranhos.
Onde amigos e inimigos
se veêm
se olham
se comem
se contradizem
se cumprimentam
e se elogiam.

Ruben A.

Fotografia de Jollyn

Interesse trágico

«Sinto-me a correr vertiginosamente para não sei onde - vou quase à toa deixando para trás os momentos quase mais inconcebíveis da minha vida. Salto barreiras em linha recta e não tropeço. Espanto-me de mim mesmo. Há uma linha que está traçada - não posso pensar em despistar-me nem mesmo em voltar para trás. Também não me apetece voltar para trás - tudo quanto tinha a fazer já fiz. Se voltasse ao princípio eu seria o mesmo e sonharia a vida da mesma forma. O interesse trágico está na certeza de repetir o passado - sinto-me sem forças para o transformar. Seria o mesmo que fui - de nada sinto o arrependimento nem mesmo da carta infame que mandei. Se voltasse ao princípio gostaria à mesma e, sempre, em igual intensidade. A timidez esmaga-me contínuo, é uma falta de presença real.» 

Ruben A.


Fotografia de YURI B