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Ângelo de Lima



Sonho suave e bom que me envolveste
Não me deixes sozinho sobre a terra
Se vais, contigo esta minha alma encerra,
Leva-a contigo a Deus d`onde vieste.


Como do céu minha alma assim mereceste
Que por ti d`ele um sonho se descerra
Aì com que frenesi que a ti se aferra,
Sonho, a ti sonho, esta alma a que desceste


Sonhos que em vossas asas me tomais
Em meio do caudal em que derivo
E em vir a mim dos outros me estremais.


Sonho, ó último sonho de que vivo
Ai não me deixes tu como os demais.
Retém-no em meu seio – ó meu senhor! – cativo

A verdadeira oportunidade



Uma das palavras que mais maltratadas têm sido, no entendimento que há delas, é a palavra oportunidade. Julgam muitos que por oportunidade se entende um presente ou favor do Destino, análogo a oferecerem-nos o bilhete que há-de ter a sorte grande. Algumas vezes assim é. Na realidade quotidiana, porém, oportunidade não quer dizer isto, nem o aproveitar-se dela significa o simplesmente aceitá-la. Oportunidade, para o homem consciente e prático, é aquele fenómeno exterior que pode ser transformado em consequências vantajosas por meio de um isolamento nele, pela inteligência, de certo elemento ou elementos, e a coordenação, pela vontade, da utilização desse ou desses. Tudo mais é herdar do tio brasileiro ou não estar onde caiu a granada.



 Fernando Pessoa