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A substância do sentimento é não se exprimir


Só quando chega à inteligência é que o sentimento se exprime. A substância do sentimento é não se exprimir. Todo o gesto pressupõe, ainda que sumária, obscura e subconscientemente, a representação mental do gesto - e a «representação mental» é uma ideia, isto é, um fenómeno daquela parte de nós, a que chamamos inteligência.

Fernando Pessoa

Fotografia de Astashkin Igor


Kafka


Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira. 

Frank Kafka

A Compra da República


Este mês, comprei uma República. Capricho caro que não terá imitadores. Era um desejo que tinha há muito tempo e quis livrar-me dele. Imaginava que ser dono de um país dava mais prazer.

A ocasião era boa e o assunto foi resolvido em poucos dias. O presidente estava com a corda na garganta; o seu ministério, composto de clientes seus, era um perigo. Os cofres da República estavam vazios; lançar novos impostos teria sido o sinal para a revolução. Já existia um general que estava a armar bandos irregulares e prometia cargos e empregos ao primeiro que chegava.

Um agente americano que se encontrava no local avisou-me. O ministro da Fazenda correu para Nova Iorque; em quatro dias pusemo-nos de acordo. Adiantei alguns milhões de dólares à República e fixei, além disso, subsídios equivalentes ao dobro dos que recebiam o Estado, ao presidente, a todos os ministros e aos seus secretários. Deram-me, como garantia - sem que o povo o saiba - as alfândegas e os monopólios. Além disso, o presidente e os ministros firmaram um covenant secreto que me concede, praticamente o controle sobre a vida da República. Embora eu pareça, quando ali vou, um simples hóspede de passagem, sou, na realidade, o dono quase absoluto do país. Por estes dias, tive da dar uma nova subvenção, bastante avultada, para a renovação do material do Exército e, em compensação, obtive novos privilégios.

O espectáculo é, para mim, muito divertido. As câmaras continuam a legislar livremente, na aparência; os cidadãos continuam a imaginar que a República é autónoma e independente e que à sua vontade se subordina o curso das coisas. Não sabem que tudo quanto supõem possuir - vida, bens, direitos civis - depende, em última instância, de um estrangeiro desconhecido para eles, isto é, de mim. Amanhã, posso ordenar o encerramento do Congresso, uma reforma da Constituição, o aumento das tarifas aduaneiras, a expulsão dos imigrados. Poderia, se me aprouvesse, revelar os acordos secretos da camarilha ora dominante e derrubar, assim, o governo, desde o presidente ao último secretário. E não me seria impossível obrigar o país que tenho sob a minha mão a declarar guerra a uma das Repúblicas limítrofes.

Este poder oculto e ilimitado fez-me passar uma horas agradáveis. Sofrer todos os incómodos e o servilismo da comédia política é uma fadiga bestial; mas ser o movimentador de títeres que, detrás dos cenários, pode divertir-se a puxar os cordelinhos dos fantoches obedientes, é uma volúpia única. O meu desprezo pelos homens encontro um alimento saboroso e mil confirmações.

Não sou mais do que um rei incógnito de uma pequena República em desordem; mas a facilidade com que logrei dominá-la e o evidente interesse de todos os iniciados em conservar o segredo faz-me pensar em outras nações, talvez mais vastas e importantes do que a minha República, vivem, sem se aperceberem, debaixo de análoga dependência de soberanos estrangeiros. Sendo necessário mais dinheiro para a sua aquisição, tratar-se-á, em vez de um só dono, como no meu caso, de um trust, de um sindicato de negócios, de um grupo restrito de capitalistas ou de banqueiros. Mas tenho fundadas suspeitas de que outros países são governados por pequenos comités de reis invisíveis, apenas conhecidos pelos seus homens de confiança, que continuam a desempenhar com naturalidade o papel dos chefes legítimos.

Giovanni Papini

Fotografia de Alexandr Zakoldaev

Deus sabe


Deus sabe em quantas ocasiões me deito na cama com o desejo e às vezes a esperança de não tornar a acordar, e de manhã abro os olhos, revejo o sol e sinto-me desgraçado. Oh!, não ser eu um maníaco!, não acusar eu o tempo, um terceiro, uma empresa falhada! Então, o insuportável fardo das minhas mágoas, não me pesaria tanto. Desgraçado que eu sou! Sinto, e bem demasiado, que toda a culpa é minha.

A culpa!, não. Trago hoje oculta no meu seio a fonte de todas as desventuras, como aqui trazia outrora a fontes de todas as aventuras. Não sou eu o mesmo homem que dantes bracejava numa inesgotável sensibilidade, que via surgir o paraíso a cada passa e tinha um coração capaz de estreitar no seu amor o mundo inteiro? Mas agora este coração está morto, não brota dele nenhum encanto, os meus olhos estão secos, e os meus sentidos, não mais aliviados por lágrimas refrescadoras, também se tornaram secos e a sua angústia sulca-me a fronte de rugas. Quando sofro!, porque perdi tudo o que dava delícias à vida, essa força divina com a qual criava mundos ao redor de mim. Passou!... Quando da minha janela olho para a remota colina, é um vão que vejo acima dela o sol da manhã atravessar o nevoeiro e brilhar no fundo pacífico do prado, e que a branda ribeira caminha para mim serpenteando por entre os salgueiros despidos de folhas. Toda esta magnífica natureza é para mim fria, inanimada, como uma estampa colorida, e de todo esse espectáculo não posso derramar em mim e fazer passar a cabeça ao coração a menor gota de um sentimento venturoso. O homem total está ali em pé, com a face perante Deus, como um poço seco, como uma selha esvaziada. Muitas vezes me prostei no chão para pedir lágrimas a Deus, como um lavrador pede chuva quando vê por cima da cabeça um céu de bronze e a terra ao redor de si a morrer de sede.

Mas, ah!, sinto-o, Deus não concede chuva e o sol às nossas importunas súplicas, e esses tempos cuja recordação me inquieta, porque eram eles tão felizes, senão por eu respirar o seu sentido com paciência, e recebia com coração agradecido as delícias que sobre mim derramava.

Goethe, in Werther


Fotografia de SEVB

Mudo desespero



«A maioria dos homens leva uma vida de mudo desespero. O que é apelidado de resignação é na verdade um desespero incurável. Mudais-vos da cidade desesperada para o campo desesperado e tendes de vos consolar com a bravura das martas e dos ratos almiscarados. Um desespero estereotipado, porém inconsciente, é ocultado até na sombra dos chamados jogos e diversões da humanidade. Não há neles diversão, já que acontecem após o trabalho. Contudo, é uma característica da sabedoria não fazer coisas desesperadas.»

Henry David Thoreau



Fotografia de Alexandr Zakoldaev

Interesse trágico

«Sinto-me a correr vertiginosamente para não sei onde - vou quase à toa deixando para trás os momentos quase mais inconcebíveis da minha vida. Salto barreiras em linha recta e não tropeço. Espanto-me de mim mesmo. Há uma linha que está traçada - não posso pensar em despistar-me nem mesmo em voltar para trás. Também não me apetece voltar para trás - tudo quanto tinha a fazer já fiz. Se voltasse ao princípio eu seria o mesmo e sonharia a vida da mesma forma. O interesse trágico está na certeza de repetir o passado - sinto-me sem forças para o transformar. Seria o mesmo que fui - de nada sinto o arrependimento nem mesmo da carta infame que mandei. Se voltasse ao princípio gostaria à mesma e, sempre, em igual intensidade. A timidez esmaga-me contínuo, é uma falta de presença real.» 

Ruben A.


Fotografia de YURI B

Deus e a Ciência


Sobre a terra dos primeiros tempos o sol brilha desde há milhões de anos.

A perder de vista, apenas distinguimos imensos desertos de lava em fusão que vomitam continuamente colunas de vapores de gás com a altura de vários quilómetros. Pouco a pouco, essas nuvens obscuras acumulam-se para formarem a primeira atmosfera da Terra. Gás carbónico, amoníaco, óxido de carbono, azoto e hidrogénio: essa mistura opaca, mortal, esmaga então o imenso horizonte ainda vazio.

Passam milhões de anos. Lentamente o calor começa a diminuir. A lava forma agora uma pasta ainda morna mas sobre a qual se poderia já caminhar. O primeiro continente acaba de nascer. É então que um acontecimento maior vai romper a monotonia dessa idade recuada: as imensas nuvens que se movem no céu condensam-se e a primeira chuva do mundo começa a cair. Ela vai manter-se durante séculos. A água invade quase todo o planeta, abatendo-se sobre as depressões, até formar o oceano primitivo. Durante centenas de milhares de anos, vagas gigantes vêm quebrar-se na rocha negra.

A Terra, o céu e as águas estão ainda vazios. Contudo, as moléculas primitivas são constatemente mexidas pelas tempestades monstruosas que se desencadeiam, incansavelmente partidas pela formidável radiação ultravioleta do Sol. É nesse estádio que surge o que, retrospectivamente, se assemelha a um milagre: no âmago desse caos, agregam-se moléculas, combinam-se, para formarem progressivamente estruturas estáveis, reflexo de uma ordem. Uma vintena de ácidos aminados existem agora nos oceanos: são os primeiros tijolos de matéria viva.

Hoje encontramos em cada um de nós os longínquos descendentes desses primeiros «habitantes» da Terra.

Deste modo, depois de uma longa e misteriosa ascensão no sentido da complexidade, a primeira célula viva emerge finalmente: a história da consciência vai poder começar.

Mas quanto permanece perturbadora esta questão levantada um dia por um físico: «Como pode um fluxo de energia que se escoa sem finalidade expandir a vida e a consciência no mundo?»


in Deus e a Ciência, Jean Guitton.

fotografia de Oleg Lobachev

livre-arbítrio-livre


Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo. Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer. Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida. São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Franz Kafka

Fotografia de Berenice Kauffmann Abud

«Escrevo arte, não escrevo livros.»


O sublimidade da criação, produzida e imanada do espírito humano, é um acto solitário de indivíduo em indíviduo. Escrever um livro não é o mesmo do que escrever arte porque o sentido íntimo das palavras dessa arte reflectem e revelam uma essência vital intransmissível e unicamente codificada em si. Escrevo arte, não escrevo livros, porque cada livro é uma obra irrepetível de sentido irreversível, a arte em si pelos conjuntos de palavras que o livro perfaz e pelo carácter associativo que estas fazem definir a energia criativa que em mim existe. Cada palavra que escrevo é uma nota musical, uma pincelada, um passo de dança, uma frase encenada, um instante cinematográfico.

Filipe de Fiúza

Fotografia de Fernando Dinis 

Solidão


«Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta e aturde quem nela cai; mas, logo que o ouvido, liberto dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar visões de raios, fosforescências indecisas, que são como que os cílios das trevas, abriu-se o negrume em brilhantismo, o silêncio avivou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas. Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos alimentam-se do que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, têm tratos inexplicáveis com o íntimo e desconhecido. Nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam os planetas; Fulton faz surgir a máquina a vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes; a solidão cismadora mostra a Linen os amores e o sono das plantas, a Newton e a Laplace o código dos astros, ao Gama o caminho do oriente, ao Soldado Camões o da imortalidade. Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto nas suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, sem o sentir é degolado. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar os seus tão extraordinários inventos e descobrimentos. Lavoisier, depois de haver legado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingratamente à guilhotina, pede aos seus carrascos quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à Humanidade. Depois já não terá pena de morrer.

O Homem que nasce pertencente à escassa família naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da ciência.

André Chenier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para a morte, bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.

Boníssima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram, dos teus recôncavos rebentam os génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecido, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco libertas dons, como sobre o muito; prudente para o imenso, prudente para o limitado. Solidão, inspiradora de todos os visionários, de todos os descobridores, de todos os inventores! Solidão, ninho das rolas como das águas, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te.

A chave do enigma
.» 

António Feliciano de Castilho

Fotografia de johny hemelsoen

Mestre Papini


Ao princípio, somos carne animada pela alma; a meio caminho, meias máquinas; perto do fim, autómatos rígidos e gelados como cadáveres. Quando a morte chega, encontramo-nos em tudo semelhantes aos mortos. Esta petrificação progressiva é obra do hábito.

O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo - indiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos - torna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.

O hábito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsciência e deixam de ser vida para se tornarem peças de um mecanismo imprevisto. O círculo do espontâneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.

É como se o sangue se tornasse, a pouco e pouco, sólido como os ossos e a alma um sistema de correias e rodas. A matéria não passa de espírito petrificado pelos hábitos. Nasce-se espírito e matéria e termina-se apenas como matéria. A casca converteu em madeira a própria linfa.

A casca é necessária para proteger o albume, mas uma árvore toda casca está morta. Os hábitos da vida vegetal permitem um campo mais vasto à alma, mas se a vida da alma se afunda nas satisfações mecânicas, a queda está próxima.

(...) O hábito avilta até os actos mais belos e sagrados do homem. O beijo, se se torna gesto usual, não passa de troca de saliva: o amor evacuação de um líquido incomodativo. A mesma oração, reduzida a algaraviada mecância, em vez de hino do coração converte-se em ginástica de memória e dos lábios.

O hábito nasce de um pecado - a inércia - e ajuda a propagação e perpetuidade de todos os pecados. Por inércia, prefere-se repetir os actos dos outros, em vez de procurar, com o esforço do pensamento, os melhores. Por inércia, costumam repetir-se os maus actos, porque são infinitamente mais comuns e visíveis, e não nos queremos cansar a procurar os heróicos, muito mais raros e penosos.

Por inércia, imitamos os outros maus actos, porque estão mais conformes com a enfermidade da natureza vulnerada: poupamos o trabalho de a modificar e vencer. Por inércia, persistimos nos actos limitados, os quais se tornam tanto menos cansativos quanto mais se repetem.

Com esta convergência de preguiças, formam-se e consolidam-se os hábitos - quase todos, pela força das coisas, pecaminosos. O hábito não cria as culpas, mas radica-se tanto que as torna quase inextirpáveis. É um pecado que conduz à incurabilidade de quase todos os pecados. A conversão a Deus não passa de um esquartejamento violento de maus hábitos.

As vitórias mais elevadas do poder espiritual são insurreições contra o hábito. A poesia é um recalcitrar perene na queda na visão usual, de manter a virgindade estúpida do sempre novo; a filosofia é a efracção repetida de vez em quando das formas das antigas experiências para descortinar a fluidez subterrânea de ser sempre diferente; a santidade é a libertação da baixeza dos hábitos cómodos e comuns para ascender ao sempre novo milagre do amor. E com este triunfo sobre o usual, poetas, filósofos e santos são considerados loucos pelas multidões dos autómatos empedernidos na baixeza dos hábitos.

Giovanni Papini, in 'Relatório Sobre os Homens'

Almas de Sol


O divertimento constante dos segredos: almas de Sol.

A pansofia dos destinos, o caos inconsequente das palavras modernas, modernizadas e modernísticas, as pessoas andam estúpidas de sono, demasiado andarilhas, e a literatura remete-se à prontidão das vendas dos colossos embriagados. Assim, admiro-lhes, coitados, todos os momentos de mágoa e angústia esboçados em pequenas, pequeníssimas tragédias domésticas, como se fossem micronovelas, de assuntos ainda mais pequenos, mesquinhos, atrozmente ridículos, quase sem palavras. Há ou não há literatura? Há ou não há o género da vida que exercita palavras? Há, mas não se escreve. Há, mas fica calado. Há, mas isola-se dos meios de mediatificalizaminação.

A literatura é de todos, no entanto, esse estado fisiológico caracterizado pela insensibilidade dos sentidos e pelo repouso que proporciona, há quem lhe já tenha por morte ou sono eterno, impede a dádiva literária do povo, aqueles que transcendem o trânsito das cidades, a monotonia dos dias de trabalho, a incerteza do futuro, a impossibilidade da felicidade. A literatura é de todos, mas a literatura não está só nos livros, a literatura está na vida e em tudo o que lhe envolve. A vida, a vida nós sabemos o que é...

Se já não guardam rebanhos, se já não trabalham desde os seis anos de idade para ajudar ao sustento da família numerosa, se já não são analfabetos e vivem numa Europa, que livros e poemas andam a ler? Chateaubriand? Queirós? Pessoa? Rilke? Saramago? Tavares? Só os que lhes dão na escola... o famigerado templo do ensino. Mas quem disse que a literatura está na escola? Sim, claro, a escola faz parte da vida, logo a literatura também está na escola. Todavia, não será a literatura do templo do ensino supérflua e impositiva? A escola é apenas mais um eco do embaraço e desordem dos valores sociais, morais e literários do nosso tempo. É preciso acordar para a insurreição dos valores actuais da literatura! O que é que se ganha em ler? O que é que se ganha em pensar depois de ler? O que é que se ganha em escrever depois de pensar e de ler? Ninguém sabe. Contudo, gosto de acreditar que pela palavra se cria «iluminação», e é desta «iluminação» que todos precisamos para a vida: o conhecimento do Homem está na linguagem.

Incrédulo à passagem dos pensamentos, mais ou menos espirituais, divirto-me com as nuvens intentando maravilhosos novos mundos para lá da imaginação.

Não durmo, respeito-lhes o sono:

«Ler é maçada, estudar é nadaFernando Pessoa

Filipe de Fiúza

Fotografia de Vladimir Kulichenko

O amor ou a loucura


«Uma coisa bela de si para si, a esperança indomável do infinito, brumas brancas, iluminações fatídicas, um sem número de reflexos da coisa bela, bela em si. Amanhece no coração das árvores, a ternura acorda do ventre do Sol, os céus arredondam estrelas que se esvão progressivamente. É assim, a história alegre dos deuses, livres para a descoberta voraz do nada, imenso nada, querido perplexo férvido rio. O amor ou a loucura: o amor porque é em si louco, a loucura porque ama qualquer coisa bela.»

Filipe de Fiúza

14/07/2009